Considerações sobre o audiovisual expandido: a animação cinematográfica com bonecos

Para o pesquisador Greg Hilty (2011, p. 10), a estética dos filmes de animação é, ao mesmo tempo, iluminada e sombria. Criando em universos, que ele chama de “esplanada repleta de figuras arquetípicas de príncipes, palhaços, primitivos e dragões”, a animação faz seus personagens, os bonecos, serem comprimidos, alongados e metamorfoseados em outras formas. Ele propõe: “se o filme animado pode ser parecido com um sonho, então o mundo da animação como um todo pode ser vista como uma imagem do inconsciente coletivo” (p. 10).

Com o cinema, para além do teatro, todos os objetos e artes – desenhos, bonecos, pedaços de papel – podem se transformar em seres fantásticos, sofrer acidentes, praticar mágicas, enfim, retratar “mundos de fantasia e mitos muito mais convincentemente que outras formas narrativas” (HILTY, 2011, p. 10).

Sendo o boneco uma representação, uma analogia, um reflexo, citamos Jacques Rancière, que trata da representação, em termos da identificação do público, como uma determinada “regulagem da realidade”, que tem, para ele, uma dupla acomodação. Assim,

“de um lado, os seres da representação são fictícios, independentes de todo julgamento de existência, portanto, escapam à questão platônica acerca de sua existência ontológica ou de sua exemplaridade ética. Contudo, esses seres fictícios não deixam de ser seres de semelhança, cujos sentimentos e ações devem ser compartilhados e apreciados”

RANCIÈRE, 2012, p. 126

Ismail Xavier (1984, p. 92) fala sobre a experiência cinematográfica que vivenciamos, na qual “a identidade do objeto ou da pessoa, que vemos na tela é relativa”, pois cada um de nós vê particularidades referentes aos próprios conceitos e sensações. Com isso, nos relacionamos no cinema, em geral, com o fato de que  “a oposição animado/inanimado é arbitrária e produto dos limites do nosso senso comum” (p. 93).

Se pensarmos em personalidades constituídas nestes objetos que são manipulados em ilusão de movimento, temos no cinema um “poder anímico”, pondera Xavier (1984). Assim, entre manobras analógicas e recursos virtuais, podemos tratar de magia quando falamos de cinema de animação, pois “parte da força da animação como meio reside na facilidade com que ela se transmorfoseia entre ‘ficção’ e ‘realidade’”, afirma Hilty (2011, p. 11). Para ele, o movimento da animação é um convite e um pedido desses bonecos e personagens, como se eles clamassem: “deixem-me ser, deixem-me existir, veja-me”.

Nas aparições dos bonecos nas telas dos cinemas, ao longo dos anos, operaram diretores, manipuladores e bonequeiros que, convergindo o teatro e as possibilidades de trucagens e criações de múltiplas novas tecnologias, criaram filmes e histórias nas quais personagens e técnicas de manipulação construíram a linguagem e a estética do que hoje conhecemos por cinema de animação.

Com mais acesso às ferramentas de captação e edição de imagens, expansão de espaços de estúdio com cenários virtuais e aplicação de engenharia de videogames e, ainda, de programas de computação gráfica que possibilitam a modelagem e a animação em diversas técnicas (2D, 3D, stopmotion), a produção de animação fica cada mais híbrida. A difusão deste conteúdo audiovisual também se apresenta, em tempos contemporâneos, diluída por canais mais tradicionais, passam pelo streaming e não escapam da pirataria.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HILTY, Greg. Object, dream and image in animation. In: HILTY, Greg, PRADO, Alona (org). Watch me move: the animation show. Londres: Merrell, 2011. pp. 10- 17.

RANCIÈRE, Jacques. O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

PARA CONHECER ANIMADORES E ANIMAÇÕES:

LOTTE REINIGER – ALEMANHA (c. 1926)

JIRI TRNKA – REPUBLICA TCHECA (c. 1947)

RAY HARRYHAUSEN – ESTADOS UNIDOS (c. 1960)

NORMAN MCLAREN – CANADÁ (c. 1971)

JIM HENSON – ESTADOS UNIDOS (c. 1982)

STEVEN SPIELBERG – ESTADOS UNIDOS (c. 1993)

NICK PARK / PETER LORD – INGLATERRA (c. 2000)

JAMES CAMERON – ESTADOS UNIDOS (c. 2009)

JON FAVREAU – ESTADOS UNIDOS (c. 2019)

O projeto IMAGENS MARIONETÁVEIS – O TEATRO DE BONECOS NA TELEVISÃO DO RS é uma realização da artista visual, jornalista e produtora cultural Yara Baungarten e apresenta uma série de postagens para a internet sobre produção de teatro de bonecos para a televisão gaúcha, desde os anos 1970 até hoje. Trata-se de um passeio pela história do teatro de bonecos e da televisão, com os principais grupos e companhias envolvidas, as técnicas de manipulação mais utilizadas nos programas e os formatos televisivos.

Yara Baungarten: artista, jornalista, pesquisadora e produtora cultural

A série de dez publicações digitais pode ser acompanhada, entre 05 a 26 de outubro de 2020, às segundas, quartas e sextas-feiras, através do Instagram e Facebook de Yara Baungarten (@yarabaungarten). A última publicação será um e-book, resultado da compilação de todo o material, também chamado IMAGENS MARIONETÁVEIS – O TEATRO DE BONECOS NA TELEVISÃO DO RS, disponível no site www.imaginaconteudo.com.

Este trabalho conta com o financiamento do Edital FAC DIGITAL RS.

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